Leblon
- Manu Pinheiro
- 21 de out. de 2025
- 4 min de leitura
É difícil começar a descrever uma cena com simples palavras rabiscadas em um guardanapo papel. Ainda mais quando essa cena está repleta de nervosismo e emoção, meias verdades e verdades inteiras, fascínio e desconfiança, alguns gestos calculados e outros nem tanto. Difícil, sim - mas mais difícil ainda seria ignorar essa cena do encontro na livraria. Ah, eu não havia dito que era em uma livraria? Pois bem, então vou contar tudo o que vi, desde o começo.
Ela estava com o coração acelerado, desde a hora em que acordou. Não sabia se por conta dos acontecimentos da noite anterior ou se o motivo de todos aqueles batimentos era o encontro agendado dias antes. 17h estava marcado na agenda de bolso. Não que ela tivesse olhado aquela página duzentas vezes pela manhã... Ela havia decorado: 17h, 17h, 17h. Será que daria tempo?
O dia estava lindo! Um calor abrasador em um cenário perfeito pra uma sexta-feira de férias: a praia do Leblon. O Rio de Janeiro realmente continuava belíssimo, e aqueles dias estavam mesmo propícios para descansar antes do início do ano. Aquele seria um ano cheio de trabalho, e ela sabia que precisaria reunir toda a energia possível para aguentar o tranco. Pensou que cinco dias na cidade maravilhosa seriam perfeitos. Ledo engano. Afinal, aquela cidade não é exatamente o melhor lugar para uma mulher de (quase) trinta anos - livre, desimpedida e sem relógio - descansar.
Três e quinze. Claro que daria tempo! Esticou a canga na areia, pediu um mate -“metade mate e metade limão, parceiro!” - e esperou pelo amigo carioca que havia marcado com ela “ali, na frente da barraca da Rainha." Pensou em como é incrível o jeito carioca de ser, de falar, de se comportar diante das coisas, diante da vida.
Dez pras quatro. “Será que eu devo ir até o apartamento, tomar um banho e me arrumar?” A essa altura o amigo já estava na segunda latinha, rindo e brincando com a agonia dela.
- Não esquenta. Se você for na onda do pessoal daqui, vai assim mesmo, direto da praia - orientou, com aquele sotaque gostoso e cheio de marra.
Mais um mate, mais uma – ou três – latinhas. Quatro e meia.
O shopping estava lotado, e, mesmo assim, ela conseguiu encontrar a livraria. Sim, ela entraria ali de chinelos, short jeans e uma bata branca encharcada pelo cabelo molhado. “Tudo bem, é bom que ele me conheça como eu realmente sou, ao natural. Sem moda, maquiagem ou truques”. Riu sozinha, diante da vitrine. Uma passada de olhos nas prateleiras e pensou na sensação de encontrar um exemplar seu no meio de tantos títulos. Novo sorriso, com o canto da boca.
O celular indica mensagem recebida.
“Estou quase chegando”, avisava ele.
Naquela altura do campeonato, ela já tinha bebido dois sucos de laranja. Não sabia se comia alguma coisa, se pedia uma bebida mais forte ou se respirava fundo e tentava se acalmar.
- Oi, desculpa pela demora, mas este trânsito é uma loucura.
Eles se conheciam apenas pela troca de e-mails e algumas palavras ao telefone. Claro que ela havia procurado alguma foto, alguma imagem que revelasse sua fisionomia nas redes sociais - mas nunca encontrou nada. E, mesmo assim, ele era exatamente como ela havia imaginado.
Enquanto conversavam, tentou por vezes controlar as mãos, que teimavam em passear pelos cabelos ainda molhados - uma espécie de tique nervoso que a atacava quando a timidez se tornava quase incontrolável. Ela tentava se concentrar no que ele dizia, mas sua mente insistia numa viagem entre as palavras e o sotaque dele. Ele parecia muito à vontade, como se já a conhecesse.
- Você bebe alguma coisa?
- Ah, sim, te acompanho.
Ele pediu vodka com Coca-Cola. “Bebida de velho”, disse. Mal sabia ele que a cuba libre é a bebida preferida dela. Nova viagem com o pensamento: “ele bebe o mesmo que eu...”
Conversaram sobre música, família, o mercado imobiliário no Rio de Janeiro, literatura, o livro dela, os livros preferidos dele, relacionamentos. Pronto - chegaram ao assunto crucial e inevitável.
Ela, solteira.
Ele, não.
“Por que é que sempre tem alguém que chega na frente?”, lamentou.
Certa vez, quando conversavam pelo computador, ele havia sugerido que ela tentasse, de alguma forma, chamar a atenção de um cara como ele. “Será que é a hora? Como será que se faz? É errado desejar o fim de um relacionamento para defender uma causa própria?”
O drink já confundia os pensamentos dela, que, a essa altura, estava embriagada por tantas dúvidas - pelo olhar dele.
- O papo está ótimo, mas eu preciso ir.
Tinha um compromisso já agendado. Ela, por sua vez, precisava apenas parar de voar e tentar voltar ao chão.
-Vamos ficar mais em contato? - ele sugeriu.
Ela preferiu não responder.
Enquanto ele descia as escadas, ela pensava que nada daquilo podia ser real. Antes de sair, outra passada de olhos nas prateleiras. Pensou novamente na sensação de encontrar um exemplar seu no meio de tantos livros - mas, dessa vez, com outro foco, outro título. Uma história diferente, com enredo, encontros e final feliz.
E sorriu, mais uma vez, com o canto da boca.





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