O calor antes da chuva - final (?)
- Manu Pinheiro
- 6 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 17 de out. de 2025
Continua...
Ela jamais imaginou ouvir isso dele, um dia. O coração dela, então, juntou-se à sua razão nesse momento para perguntá-la: como pode o teu amor dizer, com todas as letras, que te quer - e te quer seja de que maneira for - e ficar por isso mesmo? Vocês não estão dizendo, e querendo, a mesma coisa?
- Eu vou sair daqui. Beijos pra você. E muitos beijos, pois eles são de verdade - e é a única coisa que me resta. Disso eu não vou abrir mão.
Não, não saia, não vá embora assim. Era o que ela queria dizer.
Mas as mãos não conseguiam digitar nem mais uma palavra. Ele não podia fazer isso, não agora. Provoca-o, então...
- Às vezes teu egoísmo é exagerado demais.
- O nosso.
- O nosso???????
- Não me queira da sua maneira. Eu não posso. Eu sou só o que sou, e nada mais.
Sim, ele estava coberto de razão. Ela não poderia querer transformá-lo naquilo que desejava. Não poderia e nem queria. Aliás, nunca quis! Por que, então, ele acreditava nisso?
- Eu não posso mesmo te querer a minha maneira... Mas você também não pode me querer simplesmente. E ponto. E desculpa se às vezes eu sinto coisas que qualquer mulher "normal" sente.
Confuso demais. Ele não a conseguiria entender, pois nem mesmo ela conseguia. Sobre o que eles falavam mesmo?
- Chega – ela disse – continuamos amanhã.
- OK. Me liga.
Ele só podia estar brincando...
- Não. Não me liga. Eu prefiro te ver.
Não tinha dúvidas, ele estava de brincadeira...
- Você vai me enlouquecer. Vai sim, eu sei.
- Não vou não. E você sabe disso. Se você tivesse certeza que eu te enlouqueceria, teria um motivo concreto para fugir de vez e nunca mais falar comigo.
- Mas eu não quero fugir! Esse papel quem representa é você.
- Ah, sim, fugas eu tenho muitas, mesmo. Só que de você eu tento me aproximar.
Ela começava a imaginar coisas.
Tentou dizer a ele que precisava urgentemente ir para a cama, pois estava prestes a tomar um vidro inteiro de remédios, ou então cortar os pulsos – momento drama número dois. E ainda o consolou, rindo, dizendo que ele não precisaria se sentir culpado na hora de seu enterro. Ela riu, pois jamais faria uma coisa como essa.
- E você completaria o final do livro com essa cena ridícula e melodramática de enterro? Isso não é nada bom para o final de uma história.
Falou o ator... Ela não podia deixar barato. Afinal, também sabia ser “malandra”:
- Não. Eu terminaria com minha alma voltando, e deitando na tua cama. E, claro, completamente nua.
Pronto. Eles estavam de volta. Exatamente da maneira como sempre foram, como sempre se trataram. O relacionamento deles estava, mais uma vez, caracterizado: dois artistas, dois sentimentais, duas pessoas em constante busca por (des)equilíbrio.
- Eu odeio você.
- Eu também.
- Eu odeio amar você.
- Eu também. Mas você não sai de mim. Vou tomar um Lexotan - momento drama dele.
- Vai. Que eu vou continuar em você.
- Eu sei disso.
- Aparece. E olha nos meus olhos. Depois vê no que vai dar.
Inútil. Depois de ler a última frase escrita por ela, ele ficaria off line durante muito tempo. Como sempre. Até o dia em que voltarem a se falar — e escreverem mais um capítulo dessa história que parece não ter fim.





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