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Na festa

  • Foto do escritor: Manu Pinheiro
    Manu Pinheiro
  • 12 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

O calor continuava abrasador, e ela ainda precisava arrumar o cabelo com aquela chapinha que o deixava liso e lindo — mas que também a fazia suar feito uma condenada.

A colação de grau começaria às seis da tarde, justamente quando o sol ainda castigava quem se aventurava fora da sombra. Ar-condicionado, ufa! Lugar bem na frente do auditório — conseguiria ver tudo de perto. Só não daria para conferir quem estivesse nas fileiras de trás.


Emoção e muitas lágrimas pela conquista daquela menina tão amada, que ela vira crescer e se tornar uma mulher linda, íntegra, inteligente. Choro. Pelo momento, por aquelas pessoas, por ela mesma, por ele. Será que ele veio? “Não, não vou pensar nisso agora”, tratou logo de afastar o pensamento. Queria apenas sentir.


Fotos. Ah, como ela gostava de tirar fotos! Principalmente em ocasiões como aquela. O calor, porém, estava fazendo toda a produção — vestido, cabelo, maquiagem — ir por água abaixo. Pegou um leque e foi tentar tomar um ar no canto do estúdio, enquanto amigos e familiares se divertiam fazendo poses para os flashes.


— Estou toda melada por causa do calor.

— Não importa...


Foi o que conseguiram dizer um ao outro no momento em que se encontraram. Eles sabiam que a possibilidade de se verem naquela formatura era grande, mas, sem que pudessem prever, seus olhos se cruzaram no meio daquela gente toda que, entre abraços e pedidos de “licença”, “desculpe”, tentava sair do auditório.


Cinco minutos se passaram, e seus corpos continuavam grudados num abraço apertado e caloroso. Era como nos filmes — ou nas cenas românticas das novelas brasileiras: o mundo parecia ter parado de girar em torno daquele abraço. Ouvia-se o soar de sininhos (como se fosse Natal), anjos sobrevoavam o lugar, enfeitando a cena.


— Cadê tua irmã? Quero abraçar aquela peste!


Pronto. Aqueles momentos de heroína de história de amor se resumiram, naquele instante, aos minutos em que estiveram abraçados. As pessoas voltaram a se cumprimentar, a se esbarrar. Os formandos pulavam e cantavam juntos. E ele estava no meio deles. Ela, extasiada, só conseguia abanar o leque.


— Tu vais ao baile? — perguntou ela, de longe.


A resposta afirmativa a fez ainda mais feliz. Lá, teriam chance de conversar, dançar, e...


Muita gente já rebolava na pista do clube quando ela chegou ao baile. Ao encontrar sua mesa, cumprimentou as pessoas que ali estavam, deixou a bolsa sobre uma cadeira e saiu pelo salão. Onde ele estaria? Como ela o acharia no meio de tanta gente?


Lá estava ele. Elétrico, como sempre, andando de um lado para o outro. Ela permaneceu imóvel. Não conseguiu ir até ele. Muitas meninas o cumprimentavam, entusiasmadas com a presença daquele “amigo” que estivera longe por tanto tempo. “Diabos! E eu?” Ela queria que alguém a levasse pelas mãos até ele. Ou que um clarão se abrisse em torno dela, para que ele a notasse. Bobagens. Voltou para a mesa.


O vocalista da banda parecia ler seus pensamentos: “...e te abraçava, do you wanna dance?”. O uísque já passava da metade da garrafa, e ela pensava que, de repente, mais um sonho não faria mal algum.“Ela só pensa em beijar”, dizia o refrão da música seguinte. E lá estava ela — linda, dançando, sacudindo os cabelos soltos, deixando parte da perna aparecer por entre a fenda do vestido longo — já sem saber se pensava em beijar ou em ir embora, acabando de vez com o cansaço, o calor e o nervosismo por tê-lo perdido de vista naquele baile lotado de oportunidades e, principalmente, de mulheres loucas para aproveitá-las.


Mais uma volta no salão. Nada.


— Desisto!


Bastou isso para que ele surgisse, como mágica, sentado a uma mesa no canto. Ela não pensou duas vezes: saiu correndo ao encontro da sua paixão.


— Ô, mulher, por onde tu andavas?

— Pelo baile, te procurando.

— Mentira!

— Verdade. E ainda não acredito que te encontrei...


Continua...




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