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O calor antes da chuva

  • Foto do escritor: Manu Pinheiro
    Manu Pinheiro
  • 6 de out. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 17 de out. de 2025

Um dia quente demais, uma espera longa demais — e um coração que ainda acredita na próxima mensagem



Aquele seria apenas mais um dia na vida dela - não fosse o calor de quase 38 graus, que esquentava não só o asfalto do centro da cidade, onde passaria a tarde inteira em seu apertado escritório, mas também fazia arder seu corpo e sua alma. Além da temperatura infernal, o dia ainda prometia uma reunião não menos quente no trabalho, em que os ânimos poderiam se tornar abrasadores diante das providências e decisões que ela precisaria tomar.


Apesar do mau humor ao ser despertada pelo toque do celular – ela já deveria ter trocado aquela “droga de toque que mais parece uma abelha neurótica”, que há dias a deixava com as mãos trêmulas, só por ouvi-lo tocar – tomou um banho apressado, deitou-se sob o ventilador de teto ligado na velocidade máxima e, nua e ainda molhada, começou a se imaginar usando cada um dos looks que havia pensado para aquele dia. Claro, estava quente demais; a cidade parecia um imenso forno. Ela teria inúmeras “voltas para fazer”, mas, ao cair da tarde, ele ligaria para marcar um encontro.


O tempo que passam sem se ver faz com que ela se preocupe - sim - com o modelito que irá vestir quando, enfim, resolvem se encontrar. Não queria parecer arrumada demais, como quem espera ansiosamente impressionar o outro, mas também não poderia fingir que não se importava com aquele momento. Causar uma boa impressão era o objetivo maior.

Será que ele vai achar que emagreci se usar esta blusa?” - talvez. Mas a calça que combinava não queria fechar.

"E se usar saia? As pernas ficam de fora...está calor...hum..."


Suou muito, correndo pra lá e pra cá - às voltas com o trabalho, os compromissos, e a eterna luta contra os cabelos que teimavam em grudar nos ombros. Ela não podia amarrá-los, claro: eles ficariam marcados.

O relógio teimava em mostrar as horas. Não que ela quisesse saber se o tempo corria normalmente. Era ela quem deveria correr. Antes do telefonema dele, ainda havia tantas coisas - muitas mesmo - a fazer.

“Resolvi pedir afastamento do meu cargo nesta empresa.”

Recolheu alguns objetos que enfeitavam a escrivaninha, colocou tudo dentro da pequena bolsa e saiu. Nem teve tempo de se sentir triste, arrependida ou apavorada com o que acabara de fazer.

“Acho que vou até em casa tomar outro banho... até porque já estou achando que essa calça não tá legal.”


Penúltimo capítulo da novela das seis. Pelo visto, o final não seria muito diferente de qualquer outra história de amor.

O cabelo continuava liso e cheiroso.

Outra novela começava - aquela que todo mundo diz que é ruim, mas ninguém deixa de saber o nome do cowboy e da mocinha.

“Acho que vai chover... tá abafado demais”.

O telejornal, recheado de notícias trágicas, só aumentava a angústia. O aquecimento global era manchete - mas isso já não era novidade, ela o sentia na pele.

Ele havia dito, no dia anterior, que ligaria depois que saísse do hospital. Teria acontecido alguma coisa? Novela das oito, horário nobre. O quarto, cada vez mais quente.

Quase meia-noite. A internet seria sua companhia.


Continua...



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