O calor antes da chuva -parte 2
- Manu Pinheiro
- 6 de out. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 17 de out. de 2025
Continua...
A tecnologia, muitas vezes, parecia ser a aliada necessária para a solução de alguns, digamos, contratempos. E não restavam dúvidas: ele estaria lá.
O coração dela batia num ritmo acelerado, como se aquela fosse a primeira vez que conversava com ele. Como puxar assunto?
Não, foi ele quem deu o bolo, quem não ligou.
“Ele é que venha falar comigo.”
Mas tinha certeza que ele não faria isso. Ela o conhecia bem. Respirou fundo para tentar – ao menos tentar – controlar seu nervosismo.
- Onde está toda aquela vontade de me ver?
- Continua aqui.
Como previra, a conversa na sala de bate-papo começou - e prometia transcorrer de forma angustiada. Angústia? Claro.
Relacionamentos virtuais nunca pareceram, pelo menos pra ela, a melhor forma de se fazer entender. O que será que ele esperava que ela dissesse naquele momento?
- A coisa mais verdadeira que passar pela sua cabeça agora – respondeu ele.
Como é que ele conseguia provocá-la tanto - e de um jeito tão certeiro? Muitas coisas passavam pela cabeça dela. Qual seria, então, a mais verdadeira?
- Eu odeio a mudança de ritmo nos batimentos do meu coração toda vez que você reaparece.
Sentia-se uma completa idiota.
Como o coração podia pulsar daquela maneira por conta de uma história cujo enredo ela sabia de cor?
- Sei que eu não valho muita coisa. Mas o pouco que valho não serve para aquilo que você quer.
- E como você sabe o que eu quero?
- Eu vejo no teu olhar.
Mas de que olhar ele falava, se toda vez que estavam prestes a se encontrar - onde, enfim, poderiam se olhar frente a frente - ele fugia, desaparecia?
Alegava compreendê-la apenas pelo olhar da foto dela, a mesma que ilustrava a janela da conversa no monitor. E de nada adiantava chamá-lo de pretensioso: sabia que aquela foto nada tinha a ver com ele, mas que a carência que sentia naquele momento o permitia acreditar no que quisesse.
- Sabe o que você deve fazer com toda essa tua carência?
- Cuidado com o que você vai dizer...
Cuidado? Porque ela haveria de ter cuidado com as palavras, se ele sequer tinha cuidado com o que a fazia ouvir? A pretensão dele transformava-se, como de costume, em um imenso egoísmo.
- Olha, eu não tô legal hoje, não quero mais conversa fiada, tá? Me poupa, pelo menos uma vez na tua vida!
- Ah... agora eu tô achando que é verdadeiro. Prefiro assim. Mesmo que doa... Vai... Mais fundo... Fala o que você quer falar!
Pronto, ele havia dado a deixa. Agora ela poderia, finalmente, tudo o que sempre quis que ele soubesse.
E é exatamente aí onde mora a dúvida: o que era mesmo que ela sempre quis dizer a ele?
- Eu não quero falar nada. Já disse. Chega de papo furado! Todo mundo tem problemas, tem carências... Não é só você. Bem que podia parar de pensar um pouquinho só no teu bem e lembrar - ao menos lembrar - disso...
- Eu não estou te pedindo carinho, ou consolo. Sem auto-piedade. Se eu estiver pedindo alguma coisa, é chicote. E, desde já, agradeço sua sinceridade.
Aquilo estava se tornando irritantemente confuso. O que diabos ele estava dizendo?
- Eu sempre fui sincera com você, portanto não precisa me agradecer por isso. O que você precisa é parar de me tratar assim.
Pronto, mais uma deixa. Agora para que ele sentisse o grau de drama que envolvia aquela cena. Como se ela não soubesse que isso nunca funcionou entre eles...
- Te tratar assim??? Assim como???
Piorou.
- Lembra quando eu te disse que você age como se tivesse certeza de que basta um estalar de dedos seu e eu venho correndo, babando... Lembra?
- Lembro.
- Pois é disso que eu tô falando. É exatamente isso que você faz. Abusa, porque tem certeza de que eu tô sempre à disposição.
- Isso tá parecendo patético.
Ela engoliu em seco. Claro que era patético. Ela mesma havia dado, anos antes dessa conversa, quando se conheceram, a tal certeza que o liberava para agir daquela maneira.
A culpa era dela. Mas ele ainda pioraria a situação.
- Você não conseguiu ainda entender que eu abro meus segredos e minhas frustrações pra você porque confio. Esses assuntos não são conversados com mais ninguém. Acho que você é uma pessoa sensível, que olha além de alguns muros... Mas você parece ter ficado no muro que divide um relacionamento amoroso e um relacionamento que não pretende nada.
Quase três horas da manhã. O sono e o cansaço haviam desaparecido. No lugar deles, confusão, dúvidas, medo - e paixão. Claro, o que mais gritava, mais incomodava, mais crescia era a paixão entre eles. Um sentimento que parecia atravessar a tela do computador e estapear suas caras, dizendo que nada daquilo iria mudar. Nem adiantar. Eles deveriam deixar as coisas seguirem seu rumo - caminhando com suas próprias, e tantas vezes ferinas, palavras. E foi exatamente o que ele propôs.
- Sejamos sinceros além de tudo. Eu não quero representar nada para você.
Frase solta, em vão. Desde o primeiro momento em que se olharam - há mais ou menos cinco anos - ele representa muita coisa pra ela. E sabia disso. Como poderia não saber?
- Eu só quero você... De que maneira for... Que se foda.
Continua...





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